Complete a frase: “Não seja __________” : Sobre ser gorda e todo mundo dar palpite na nossa vida

Acontece um negócio que todo mundo acha que o corpo gordo é de domínio público ou um jogo de complete a frase. A gente que nasce, cresce e provavelmente vai morrer gorda sabe que constantemente tem que se explicar para alguém (leia quase todo mundo) em qualquer situação da vida.
Nas últimas duas semanas vivi situações que são tãããão repetitivas ao longo da minha vida que resolvi conversar sobre isso.
Situação 1: Estava todo mundo conversando sobre dieta, sobre as restrições, a vontade de comer coisas fora do cardápio estabelecido, o quanto aquilo dava resultados demorados, e todo mundo dando pitacos na alimentação alheia. Então, eu brincando disse “Ai gente, já passei dessa fase, graças a Deus”. Sim, passei mesmo, porque viver em função de uma alimentação restritiva para um emagrecimento ilusório já não faz parte de mim há muitos anos. Mas o comentário que eu fiz foi o deu a largada para:

_”MAS VOCÊ JÁ FEZ A DIETA LOW CARB?”
_”MAS VOCÊ JÁ TENTOU O JEJUM INTERMITENTE?”

Situação 2: Estava todo mundo comentando sobre exercício físico. Uma pessoa que ama, e todo o restante das pessoas da conversa que não gosta. Então eu disse, “Eu não só não gosto, eu ODEIO”. Que por sua vez deu a largada para:

_”MAS VOCÊ JÁ TENTOU FAZER UM EXERCÍCIO QUE VOCÊ GOSTASSE?”
_”MAS SE VOCÊ FIZER SEMPRE VAI VIRAR HÁBITO E VOCÊ SE ACOSTUMA”
_”MAS SE VOCÊ FIZER CERTINHO VAI LIBERAR HORMÔNIO DO PRAZER E VOCÊ VAI SE SENTIR SUPER BEM DEPOIS”

QUE SACO!

Eu nunca posso participar de uma conversa sem ser questionada de alguma coisa. Engraçado é que a opinião de todas as pessoas “não gordas” da conversa é só conversa, mas a opinião das pessoas gordas da conversa viram debate. A impressão que dá é que essas pessoas acham que elas são as primeiras a nos sugerir aquelas dicas mágicas e incríveis (insira um tom de ironia aqui), por que elas têm certeza de que nunca pensamos naquela possibilidade.

Eu vou responder as perguntas das suas situações: Dieta low carb já fiz por 2 anos seguidos e me arrependo por toda a minha vida. Jejum intermitente eu jamais faria, aliás de onde surgem essas ideias, gente?!
Exercício eu faço desde os 8 anos de idade, enquanto todas as crianças estavam brincando eu tinha que ir para uma academia fazer qualquer coisa que julgavam que ia me fazer bem. Já fiz todo balé, sapateado, jazz, natação, hidroginástica, academia, jump, futebol, spinning, zumba, funcional, caminhada e NUNCA gostei de nenhum. A dança era o que eu mais gostava, mas só o fato de ter uma apresentação final no teatro tornava aquilo uma morte lenta. Eu já tentei de tudo – TUDO – e eu falo com propriedade quando digo que odeio. Faço atividade física desde os 8 anos de idade, quanto tempo falta para isso virar hábito e eu passar a gostar? O hormônio do prazer que me exercitar libera (e isso acontece mesmo porque é biológico) não chega nem perto do tamanho do ódio que eu sinto fazendo exercício.
Isso acontece em função de todas as atribuições negativas que exercício físico tem para mim, mas o que importa não é nada disso. O que importa, de uma vez por todas, é que eu NÃO PRECISO EXPLICAR ISSO CADA VEZ QUE ENTRO EM UMA RODA DE CONVERSA.
Quando eu conto minha experiência de alguma coisa, ou opino sobre alguma coisa, eu dou sim vasão para o assunto continuar, mas EU NÃO ESTOU DANDO LIBERDADE PARA LEVANTAR O ASSUNTO SOBRE MIM.

Mas você já fez…
Mas você já tentou…
Mas você já ouviu falar…

MAS PORCARIA NENHUMA, GENTE.

E sim, eu e todas as pessoas gordas do mundo já fizemos, tentamos e ouvimos falar sobre essa coisa que você vai sugerir.
Não importa se é a minha vida ou a vida da outra pessoa gorda, nosso corpo, nossos hábitos, nosso passado, presente e futuro não é de domínio público e ninguém precisa brincar de complete a frase com a gente. Se a pessoa der liberdade, introduzir o assunto espontaneamente, perguntar alguma coisa, aí sim está liberado todo tipo de palpite ou sugestão, caso contrário não seja inconveniente (para não dizer chato).

Eu não tenho que me explicar, não tenho que justificar minha alimentação, meus hábitos de vida. É tudo uma questão de empatia, de saber olhar o outro como alguém diferente de você… e que está tudo bem em ser diferente, em ter outros hábitos, em não gostar ou não valorizar as mesmas coisas.
Bem-estar é um conceito relativo e abstrato, e não está vinculado à alimentação, nem atividade física. Bem-estar é uma sensação que se resulta de uma série de coisas com atribuições positivas para cada pessoa. Eu estou aqui, gorda, linda, divertida, inteligente, feliz… e assim eu vou seguir, por que olhar pra mim com paz nos olhos tem um valor inestimável!