Eu não conheço outra forma de ser

Me amar assim é muito fácil, eu simplesmente não conheço outra forma de ser.
É claro que olhar outras pessoas, outros corpos, outros estilos de vida me fazem questionar se é assim mesmo que eu gostaria de ser, ou se eu seria mais feliz não sendo quem ou como eu sou. Pode ser que sim, pode ser mais fácil ser mais favorecida financeiramente, pode ser mais fácil ter um corpo dentro do padrão aceito socialmente, pode ser mais fácil ser alguém mais comum ou mais tradicional.
Mas quem garante que isso me traria qualquer tipo de plenitude? Como posso saber que me isentaria de questionamentos pessoais se eu fosse totalmente diferente de quem eu sou e fui minha vida inteira?
É comum ver alguém dizendo “quando eu tinha 15 anos eu pesava 50 kg, depois que engravidei eu engordei e nunca mais emagreci”. 10 com parabéns e estrelinha pra você que aprendeu a se amar com essa mudança, e meu mais sincero desejo de que você aprenda a se amar caso essa mudança de peso e corpo tenha impedido sua felicidade.
Mas eu não sei do que você está falando quando diz que há tanto tempo atrás tinha um corpo magro.
Eu era gorda com 5 anos, eu era gorda com 10 anos, eu era gorda com 15 anos, eu era gorda com 20 anos, e eu continuo sendo gorda com 25 anos.
Meu corpo não me ofende, não me agride, não me incomoda. Essa é a minha única forma de ser conhecida. Eu sou constituída por um corpo gordo desde que aprendi que eu sou eu.
Já fiz todo tipo de tratamento para emagrecer, e a única vez que tive um corpo um pouco menos gordo eu não me reconhecia no espelho. Hoje, quase 10 anos depois, me lembro mais do sofrimento que senti nessa fase da minha vida em função do tratamento radical, do que da felicidade de entrar com facilidade em uma calça jeans.
É por isso que eu questiono se vale o sacrifício de buscar tanto ser alguém que você não é, nem nunca foi.
Acho maravilhoso tentar, buscar, ir atrás do almejado… mas é importantíssimo pra que isso dê certo conhecer a si mesma da maneira mais profunda e intensa.
Quando alguém me corrige “você não é gorda, você é gordinha/fofinha/cheinha”, por mais que a intenção seja quase sempre de amenizar uma coisa vista como ruim, essa pessoa está descaracterizando uma das minhas principais referências sobre mim mesma.
Quando alguém tenta me ofender usando “você é gorda, bem gorda”, esse alguém só está reafirmando uma das minhas características mais próprias, e nem de longe isso me soa como ofensa.
Foi tão difícil me descobrir assim, me entender assim, me integrar em mim mesma com essa forma física, que ver alguém tentando me descaracterizar é absurdamente desapontador. Meu corpo e meu entendimento de mim mesma andam juntos, super equilibrados.
Eu busco sempre a melhor forma de mim, e hoje, depois de muito pensar sobre quem eu sou e do que eu sou formada, eu entendo que a melhor forma de mim é a forma que eu tenho, por que eu não conheço outra forma de ser.
É dessa forma que o meu corpo gordo me possibilita viver uma vida leve.

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