Sobre ser gorda…

Era um bebê saudável e perfeito, afinal, quando se espera um filho esses são os únicos desejos dos futuros papais.
Me tornei a princesinha da casa, a alegria da família.
Pra me mimar, muitos docinhos, danoninhos e chocolatinhos eram comprados.
Até porque crianças cheias de dobrinhas é tão fofo né!?
Fui crescendo, e meu reinado de afeto em forma de doçuras também.
Na creche tinham horários pra tudo, foi bem difícil pra eu me acostumar, mas me acalmava saber que quando eu chegasse em casa comeria o que eu quisesse, quantas vezes eu sentisse ‘vontade’.
Cresci um pouco e perdi uns 3kg, que desespero!
Logo fui ‘medicada’ com biotônico, o apetite voltou, e os quilos também, em dobro.
Mas eu era tão linda gordinha, todos repetiam isso!
As coisas mudaram quando enfim fui pra escola, e de cara, não gostei da merenda, mamãe ficou com pena e deu logo um jeito, tinha uma banca de doces na frente da escola, e conforme mamãe combinou com a moça, eu tinha passe livre pra comprar o que desejasse.
Ufa, ainda bem!
Eram balas, correntes de melzinho, salgadinhos, doces de abóbora, chicletes, muitas opções, eu estava feliz!
Mudamos de bairro, e consequentemente, mudei de escola, foi uma fase muito complicada, tudo novo pra mim, as vezes quando eu me sentia triste procurava uma sobremesa na geladeira pra me acalmar.
Chegou a pré adolescência, e eu me sentia um peixe fora d’água, minhas amigas só falavam em beijar na boca, e eu, só queria ficar sozinha e comer um chocolate pra ficar bem.
Quando completei 15 anos minha mãe me levou na nutricionista, porque segundo ela, eu não podia continuar ~daquele jeito~. Comecei, contra minha vontade várias dietas: da lua, dos pontos, da água morna…
Junto com elas, vieram as cobranças, as chantagens, o preconceito: ‘se você continuar gorda assim ninguém vai te querer’, ‘pare de comer porcarias, coma salada!’, (what???) ‘olha suas amigas magrinhas, são todas bonitas, já você tá desse tamanho!’.
O inferno havia começado, com crueldade.
Minhas amigas já namoravam, e eu, chorava todas as noites questionando DEUS porque eu era ~daquele jeito~.
Até que, com 17 anos, eu tive ‘sorte’, um menino estava interessado em mim!
Nem eu acreditava!
Começamos a namorar, eu estava feliz, ele também.
Mas, repentinamente os papos dele mudaram, ele começou a dizer que eu precisava emagrecer, que meu corpo era feio.
Meu mundo cor de rosa desabou.
Ele insistia: ‘você tem que se cuidar, olha o tamanho da sua barriga’, ‘nossa, até estrias você tem, credo!’.
Foram meses escutando tudo isso e mais um pouco, calada, até que ele terminou comigo depois de insistir pra transar e eu me negar.
Entrei numa depressão sem fim, e engordei mais e mais. Eu estava perdida, sozinha e no meu coração só havia tristeza.
Mas aí veio a terapia, a internet, as redes sociais, novos amigos, a faculdade – que era um sonho antigo, e TUDO aquilo que me disseram sobre ser gorda, tem se transformado dentro de mim, desde então.
Hoje, eu sei o meu valor, sei que ser bonita não é sinônimo de ser magra.
Minha fiel companheira se chama auto estima, com ela, já fui, e continuo indo a lugares que jamais imaginei, ela me acrescentou confiança, e isso ninguém mais me tira!
Se você se amar de todo seu coração, isso vai refletir no seu exterior; ninguém precisa de ‘outra metade’ pra se sentir inteiro, pelo contrário, seja inteira sozinha, ame a imagem que reflete no espelho, seja sua maior admiradora!
Lute por você, esqueça essa pessoa que te prende nesse relacionamento abusivo, esqueça as capas de revista…
Mulheres reais não são feitas no photoshop!

amecorpo